Todos os anos, no início de março, a China realiza o seu evento político mais importante: as 'Duas Sessões'. Este termo refere-se às reuniões anuais dos dois órgãos legislativos e consultivos mais importantes do país: a Assembleia Popular Nacional (APN) e a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC). Muito mais do que meros protocolos cerimoniais, estas sessões marcam o momento em que as diretrizes políticas, económicas e sociais para o próximo ano são estabelecidas, oferecendo uma janela única para as prioridades do governo e o futuro do gigante asiático.
A Assembleia Popular Nacional é o órgão máximo do poder estatal de acordo com a Constituição chinesa. Com cerca de 3.000 deputados, é o maior parlamento unicameral do mundo. A sua reunião anual, conhecida como Sessão Plenária da APN, tem a tarefa fundamental de rever e aprovar relatórios de trabalho-chave, incluindo o relatório de trabalho do governo apresentado pelo Primeiro-Ministro, os planos de desenvolvimento económico e social e o orçamento nacional. É aqui que as principais metas de crescimento do PIB, a política fiscal e os objetivos de emprego são formalizados legalmente. Por outro lado, a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, embora não seja um órgão legislativo, desempenha um papel crucial como fórum de consulta política. Reúne representantes dos oito partidos democráticos reconhecidos, figuras sem afiliação partidária, representantes de grupos étnicos e diversos setores sociais para deliberar sobre assuntos de Estado antes de serem submetidos à APN, funcionando como um mecanismo de recolha de opiniões e construção de consenso.
O contexto das 'Duas Sessões' de 2024 é particularmente significativo. A China enfrenta um panorama económico complexo, com desafios como a desaceleração do crescimento, a crise imobiliária, a elevada dívida local e as tensões geopolíticas. Por isso, os observadores internacionais estão a prestar especial atenção aos objetivos de crescimento que serão anunciados, bem como às medidas concretas para estimular o consumo interno, estabilizar o mercado de trabalho e avançar na transição para uma economia de alta tecnologia. Tópicos como segurança nacional, autossuficiência tecnológica em semicondutores e 'prosperidade comum' também deverão ocupar um lugar de destaque na agenda.
As declarações e discursos durante as sessões são minuciosamente analisados. O relatório de trabalho do governo, lido pelo Primeiro-Ministro, costuma incluir frases e slogans que definem o tom político. Por exemplo, em anos anteriores, conceitos como 'novo desenvolvimento', 'circulação dupla' (focada nos mercados interno e externo) e 'segurança em todos os aspetos' têm guiado as políticas. Além disso, os jornalistas têm a oportunidade de colocar perguntas em conferências de imprensa, especialmente a do Ministro dos Negócios Estrangeiros, que se tornou um evento mediático global onde as posições da China sobre questões internacionais prementes são abordadas.
O impacto das decisões tomadas nas 'Duas Sessões' é profundo e de longo alcance. Elas não só moldam a política interna chinesa, afetando a vida de 1.400 milhões de pessoas, como também têm repercussões globais. As políticas fiscais e monetárias influenciam os mercados internacionais e as cadeias de abastecimento globais. Os planos de investimento em infraestruturas, energia verde ou inteligência artificial podem reconfigurar indústrias inteiras. Para a comunidade empresarial, tanto nacional como estrangeira, compreender as diretrizes que emergem destas reuniões é essencial para planear investimentos e estratégias.
Em conclusão, as 'Duas Sessões' são muito mais do que um ritual político anual. São o mecanismo central de governação da China, onde a direção do país é negociada, formalizada e comunicada. Num momento de transformação interna e crescente competição global, estas reuniões oferecem o roteiro mais claro para onde a segunda maior economia do mundo se dirige. Para qualquer analista, investidor ou pessoa interessada em assuntos globais, compreender os resultados das 'Duas Sessões' é crucial para decifrar as prioridades da China e antecipar o seu impacto no palco internacional durante o próximo ano.




