Num acórdão que estabelece um precedente significativo para a indústria alimentar, a empresa sueca de bebidas vegetais Oatly perdeu uma prolongada batalha legal contra o poderoso lobby do setor lácteo europeu sobre o uso do termo 'leite' para descrever os seus produtos à base de aveia. O Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) decidiu que, de acordo com a regulamentação comunitária, designações como 'leite', 'iogurte' ou 'queijo' estão reservadas exclusivamente a produtos de origem animal, concretamente os provenientes da ordenha de animais. Este veredicto põe fim a anos de disputas e campanhas de marketing por parte da Oatly, que tinha desafiado abertamente estes regulamentos com slogans como 'É como leite, mas feito para humanos'.
O contexto desta decisão remonta a décadas de regulamentação na União Europeia, onde normas como o Regulamento (UE) 1308/2013 estabelecem uma 'lista de produtos reservados' para proteger as denominações tradicionais dos produtos lácteos. O objetivo declarado é evitar a confusão dos consumidores e garantir uma concorrência leal. No entanto, a explosão do mercado de alternativas vegetais, que tem crescido a um ritmo anual superior a 10% na Europa, colocou estas normas sob um novo escrutínio. A Oatly, fundada na década de 1990 e avaliada em milhares de milhões após a sua oferta pública inicial, tinha-se tornado no estandarte deste desafio, argumentando que as regras estão desatualizadas e limitam a informação clara ao consumidor.
Os dados do setor são eloquentes. Segundo um relatório de 2023 da consultora Nielsen, as vendas de bebidas vegetais na UE ultrapassaram os 3.500 milhões de euros, com o leite de aveia a liderar o crescimento. Paralelamente, o setor lácteo tradicional, que fatura mais de 150.000 milhões de euros anuais na UE, tem exercido uma pressão constante através de organizações como a European Dairy Association (EDA) e o Committee of Professional Agricultural Organisations (COPA-COGECA). Estas entidades celebraram a decisão, alegando que 'protege a integridade das denominações lácteas e a clareza para os consumidores europeus', de acordo com um comunicado da EDA.
Declarações de ambas as partes refletem a profundidade do desacordo. Toni Petersson, CEO da Oatly, expressou a sua deceção num comunicado: 'Esta sentença é um passo atrás para a inovação alimentar e a transparência. Os consumidores modernos não se confundem; entendem perfeitamente que o leite de aveia provém da aveia. As leis devem evoluir com os tempos.' Pelo contrário, Alexander Anton, Secretário-Geral da EDA, afirmou: 'É uma vitória para o senso comum e para a legislação europeia. Os termos lácteos têm um significado histórico, cultural e nutricional específico que deve ser preservado.'
O impacto desta decisão é multifacetado. Em primeiro lugar, a Oatly e outras marcas similares (como a Alpro ou a Provamel) terão de rever o seu marketing e rotulagem na UE, possivelmente eliminando referências diretas como 'leite' ou utilizando fórmulas como 'bebida de aveia'. Isto poderá implicar custos de rerrotulagem e perda de reconhecimento da marca. Em segundo lugar, abre-se um debate mais amplo sobre a regulamentação alimentar na era das alternativas sustentáveis. Muitos especialistas em direito alimentar, como a professora Amandine Van der Aa da Universidade de Wageningen, salientam que 'a legislação atual não reflete a realidade do mercado nem as exigências dos consumidores por produtos climaticamente mais inteligentes'.
Por fim, a sentença poderá influenciar políticas globais. Enquanto nos Estados Unidos a FDA (Food and Drug Administration) debate uma regulamentação semelhante, e em países como o Brasil já existem restrições, a decisão do TJUE poderá fortalecer os argumentos dos lobbies lácteos a nível internacional. No entanto, também poderá impulsionar uma maior inovação na denominação de produtos vegetais, afastando-se de termos tradicionais. Em conclusão, esta batalha legal transcende a Oatly; é um ponto de viragem na luta entre indústrias estabelecidas e emergentes, entre proteção tradicional e adaptação ao futuro da alimentação. A pressão recai agora sobre os legisladores para modernizarem as regras sem sacrificar a clareza, num mundo onde a sustentabilidade e as escolhas dietéticas diversificadas são cada vez mais centrais.




