Num movimento que reflete a profunda instabilidade política que caracteriza a nação andina, o Congresso do Peru votou nesta quarta-feira pela destituição da presidente Dina Boluarte, apenas quatro meses após ela assumir o cargo. A moção de vacância, aprovada com 65 votos a favor, 45 contra e 2 abstenções, baseou-se na acusação de "incapacidade moral permanente", uma figura constitucional controversa que tem sido usada múltiplas vezes na última década para remover mandatários. Boluarte, que assumiu a presidência em dezembro de 2023 após a destituição e prisão de seu antecessor Pedro Castillo, enfrentava uma pressão crescente devido à sua gestão da economia e acusações de corrupção em seu círculo próximo.
O contexto desta destituição não pode ser entendido sem olhar para os últimos anos da política peruana. O Peru teve seis presidentes nos últimos cinco anos, e nenhum conseguiu completar seu mandato constitucional de cinco anos desde 2016. Esta instabilidade crônica mergulhou o país em uma crise de governança que impediu a implementação de políticas de Estado de longo prazo e erodiu a confiança dos cidadãos nas instituições. A economia, uma das de melhor desempenho na região nas últimas duas décadas, começa a mostrar sinais de fadiga, com um crescimento projetado de apenas 1,5% para o ano atual, muito abaixo da média histórica.
Os dados revelam a magnitude do desafio: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos (IEP), a aprovação presidencial de Boluarte havia caído para um mínimo histórico de 11% nas pesquisas anteriores à votação. Além disso, 78% dos peruanos desaprovam o trabalho do Congresso, uma instituição cuja imagem foi gravemente prejudicada por escândalos de corrupção e lutas partidárias internas. "Estamos diante de um sistema político que entrou em colapso", declarou a analista política Giovanna Peñaflor em uma entrevista televisiva minutos após o resultado ser conhecido. "A figura da 'incapacidade moral' tornou-se uma arma política em vez de um mecanismo excepcional de controle, e isso tem um custo enorme para a democracia."
O processo de destituição desenrolou-se durante uma tensa jornada parlamentar. Os legisladores da oposição, liderados por partidos de direita e esquerda, apresentaram seus argumentos acusando a presidente de falta de transparência na adjudicação de obras públicas e de uma gestão errática diante dos protestos sociais que ressurgiram no sul do país. "A senhora Boluarte demonstrou uma absoluta falta de idoneidade para conduzir os destinos da nação", afirmou o congressista Jorge Montoya durante o debate. Em sua defesa, os aliados da presidente argumentaram que a moção era um "golpe parlamentar" que visava interromper investigações judiciais que envolvem vários legisladores.
O impacto imediato desta decisão é a sucessão constitucional. De acordo com a Constituição peruana, a presidência deve ser assumida pelo presidente do Congresso, atualmente Alejandro Soto Reyes, que exercerá o cargo interinamente. No entanto, a Constituição estabelece que o Congresso deve eleger um novo presidente permanente dentro de um prazo de 30 dias. Este processo promete ser complexo e divisivo, dada a fragmentação do legislativo, onde nenhum partido detém uma maioria clara. A incerteza política já se transferiu para os mercados: o sol peruano depreciou-se 2,3% frente ao dólar no mercado paralelo, e o risco-país, medido pelo EMBIG Peru, subiu 25 pontos base.
A longo prazo, a destituição de Boluarte aprofunda a crise de representatividade e ameaça desencadear um novo ciclo de protestos sociais. Organizações indígenas e coletivos das regiões mais pobres do país anunciaram mobilizações para exigir eleições gerais antecipadas e uma reforma constitucional. "O povo não se sente representado por este Congresso nem por qualquer presidente que eles escolham a portas fechadas", manifestou a líder social Ruth Bautista da cidade de Puno. A comunidade internacional também reagiu. A Organização dos Estados Americanos (OEA) emitiu um comunicado expressando "preocupação" e instando a "respeitar a ordem constitucional e priorizar a estabilidade democrática".
Em conclusão, a destituição de Dina Boluarte não é um fato isolado, mas o sintoma mais recente de uma crise política estrutural que consome o Peru. O uso recorrente da vacância presidencial como ferramenta de luta política esvaziou o Poder Executivo de autoridade e transformou a governabilidade em um bem escasso. Para sair deste labirinto, o país requer não apenas um novo presidente, mas um grande acordo nacional que inclua uma reforma do sistema político, o fortalecimento das instituições e a recuperação da confiança dos cidadãos. Enquanto isso não acontecer, o Peru permanecerá preso em um ciclo de instabilidade que compromete seu desenvolvimento econômico e social.




