Novas revelações judiciais trouxeram à tona uma tentativa de última hora do financista Jeffrey Epstein de adquirir uma propriedade luxuosa no exterior, poucos dias antes de ser preso pelas autoridades norte-americanas sob acusações de tráfico sexual. De acordo com documentos apresentados a um tribunal de Nova York, Epstein, através de seus advogados, iniciou negociações para comprar um palácio em Marrakech, Marrocos, em junho de 2019. Este movimento, que os promotores descrevem como uma possível tentativa de estabelecer uma base fora do alcance da justiça americana, adiciona uma nova camada de intriga aos últimos dias de liberdade do polêmico magnata.
O contexto desta operação é crucial. Em junho de 2019, Epstein já era uma figura notória, tendo cumprido uma sentença reduzida e controversa por crimes sexuais em 2008. Investigações jornalísticas e processos civis mantinham seu nome em evidência pública. No entanto, a investigação federal que levaria à sua segunda prisão em 6 de julho de 2019 se desenrolava em segredo. Os documentos indicam que as conversas sobre a propriedade marroquina, avaliada em vários milhões de dólares, ocorreram entre 24 de junho e 2 de julho. Os advogados de Epstein contataram um intermediário para expressar o "interesse sério" de seu cliente na propriedade, solicitando plantas baixas e detalhes da transação.
Os promotores federais argumentaram que esta tentativa de compra reforça sua teoria de que Epstein representava um "risco de fuga" extremo. Eles observam que o Marrocos não possui um tratado de extradição com os Estados Unidos para certos crimes, o que poderia ter transformado o país em um refúgio seguro. "As ações do acusado nas semanas que antecederam sua prisão, incluindo este esforço para adquirir uma propriedade substancial em um país sem um tratado de extradição plenamente executável, demonstram uma clara consciência de culpa e uma intenção de fugir da justiça", lê-se em uma petição do Ministério Público. Este ponto foi central na negativa de liberdade sob fiança antes de sua morte na prisão.
A propriedade em questão, segundo descrições, é um palácio tradicional marroquino (riad) na Medina de Marrakech, com pátios internos, fontes e decoração ornamentada característica da arquitetura local. Este tipo de propriedade é conhecido por sua discrição e segurança, muitas vezes escondido atrás de altos muros. Para os investigadores, a escolha de um local tão específico e remoto, em comparação com seus bens conhecidos em Nova York, Flórida ou sua ilha privada, sugere um planejamento deliberado. Não está claro se um pagamento inicial foi realizado ou se a venda estava próxima da conclusão, mas a mera iniciação do processo é o que alarmou as autoridades.
O impacto desta revelação é multifacetado. Em primeiro lugar, alimenta teorias sobre a rede internacional de Epstein e sua possível busca por santuários em jurisdições complexas. Em segundo lugar, influencia os procedimentos legais em curso relacionados ao seu espólio e aos processos movidos por suas vítimas, já que qualquer ativo adquirido ou tentado adquirir pode ser objeto de escrutínio. Finalmente, reforça a narrativa de que Epstein, apesar de sua aparente vida pública, operava com um alto grau de previsão para proteger seus interesses e possivelmente evitar consequências legais.
Em conclusão, a tentativa de compra do palácio no Marrocos emerge como um episódio crítico que encapsula os esforços finais de Jeffrey Epstein para manter o controle e a impunidade. Ilustra a desconexão entre sua vida de luxo extremo e as graves acusações que enfrentava, ao mesmo tempo em que sublinha os temores do Ministério Público sobre sua intenção de fugir. Esta descoberta não apenas enriquece o sombrio mosaico de suas atividades finais, mas também levanta questões persistentes sobre a extensão de seu planejamento e as redes que ele pode ter usado ou pretendido usar para escapar da prestação de contas nos Estados Unidos.




