A era das guerras comerciais iniciada pela administração Trump entre 2017 e 2021 deixou uma cicatriz profunda no sistema multilateral de comércio que vigorava desde a Segunda Guerra Mundial. A imposição de tarifas massivas, principalmente sobre a China, mas também sobre aliados tradicionais como a União Europeia e o Canadá, sob o lema 'America First', não foi um mero ajuste de política, mas um terremoto estratégico. O então presidente Donald Trump utilizou a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e argumentos de segurança nacional para justificar taxações sobre centenas de bilhões de dólares em importações, desafiando abertamente as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC). Essa abordagem unilateral fraturou alianças, desestabilizou cadeias de suprimentos globais e marcou uma guinada histórica em direção ao protecionismo e ao confronto econômico como ferramentas de política externa.
O contexto dessa ruptura remonta a décadas de descontentamento em setores políticos e econômicos dos Estados Unidos com os efeitos da globalização, particularmente a perda de empregos na manufatura e o déficit comercial crônico. Trump canalizou esse descontentamento, argumentando que acordos comerciais como o NAFTA (agora USMCA) e a adesão da China à OMC haviam sido prejudiciais aos trabalhadores americanos. Os dados são eloqüentes: em 2018, sua administração impôs tarifas de 25% sobre 50 bilhões de dólares em importações chinesas, seguidas de rodadas adicionais que elevaram os impostos sobre mais de 350 bilhões de dólares em bens. A China respondeu com medidas simétricas, desencadeando uma escalada que desacelerou o crescimento econômico global e gerou incerteza nos mercados. Embora a 'Fase 1' de um acordo comercial em 2020 tenha aliviado temporariamente as tensões, as tarifas centrais permaneceram, criando um novo status quo.
As declarações da época refletem a divisão ideológica. 'As tarifas são o máximo', afirmou Trump repetidamente, defendendo-as como um instrumento para forçar acordos melhores. Em contraste, a Diretora-Geral do FMI, Kristalina Georgieva, advertiu que 'as guerras comerciais não têm vencedores, apenas perdedores', ressaltando o dano colateral à confiança e ao investimento. O impacto foi multifacetado: as empresas americanas enfrentaram custos de insumos mais altos, muitos agricultores perderam acesso a mercados cruciais e precisaram de resgates governamentais, enquanto os consumidores absorveram parte dos preços mais elevados. No plano geopolítico, o conflito acelerou o desacoplamento tecnológico entre EUA e China, particularmente em setores como semicondutores e telecomunicações 5G.
Hoje, o legado das tarifas de Trump molda um panorama comercial radicalmente diferente. A administração Biden manteve em grande parte as medidas, embora com uma abordagem mais estratégica e centrada em aliados, buscando formar 'clubes' de nações com valores semelhantes para conter a China. A OMC, já enfraquecida, luta por sua relevância com seu mecanismo de solução de controvérsias paralisado. As cadeias de suprimentos, atingidas primeiro pela guerra comercial e depois pela pandemia, estão sendo reconfiguradas sob o paradigma da 'resiliência' e da 'segurança', priorizando redundância e proximidade geográfica em vez da pura eficiência. Isso implica uma possível regionalização do comércio e aumento dos custos de longo prazo.
A conclusão é que a ordem comercial baseada em regras, aberta e multilateral que prevaleceu por 70 anos foi, se não destruída, severamente danificada. A pergunta 'E agora?' não tem uma resposta simples. O caminho a seguir oscila entre dois extremos: um esforço difícil para revitalizar e reformar o multilateralismo, ou uma consolidação de um mundo fragmentado em blocos econômicos concorrentes. As escolhas feitas pelos Estados Unidos, China e União Europeia nos próximos anos determinarão se o protecionismo da era Trump foi uma anomalia ou a nova linha de base para uma economia global mais dividida e menos cooperativa. A estabilidade econômica e a paz geopolítica dependem significativamente desse resultado.




