A explosão do OnlyFans como plataforma de conteúdo adulto tem sido um dos fenômenos digitais mais comentados dos últimos anos, prometendo independência financeira e empoderamento para criadores. No entanto, uma reportagem de investigação revela uma realidade muito mais sombria e menos glamourosa: uma economia oculta de trabalhadores mal remunerados, alguns ganhando apenas $2 dólares por hora, que sustentam nas sombras o funcionamento das contas dos criadores mais bem-sucedidos. Esses trabalhadores, frequentemente contratados por meio de plataformas de freelancing em países com custo de vida mais baixo, realizam tarefas essenciais como moderação de conteúdo, gestão de mensagens, agendamento de publicações e atendimento ao cliente, permitindo que os 'influenciadores' principais se concentrem na criação de conteúdo. A promessa de autonomia e alta renda vendida pela plataforma desmorona diante desta cadeia de suprimentos globalizada e precarizada.
O modelo de negócios do OnlyFans, que faturou mais de US$ 5,5 bilhões em 2022, baseia-se na retenção de 80% da receita gerada por assinaturas e gorjetas pelos criadores. No entanto, para manter a relevância e o engajamento em um mercado hipercompetitivo, muitos criadores são obrigados a terceirizar tarefas administrativas e de comunidade. Isso deu origem a um mercado cinza de 'agências' e gestores que oferecem esses serviços, muitas vezes explorando a disparidade econômica entre países. Um trabalhador nas Filipinas ou na Venezuela, por exemplo, pode considerar um pagamento de US$ 200-300 por mês por 40 horas semanais como uma renda viável, enquanto esse salário seria ilegal e insustentável na América do Norte ou Europa Ocidental. A própria plataforma não regula essas relações de trabalho, argumentando que são acordos privados entre criadores e seus contratados.
'É nojento e comovente', declarou uma pesquisadora trabalhista entrevistada para a reportagem. 'Vemos jovens, muitos deles com ensino superior, realizando um trabalho emocionalmente exigente – moderando comentários abusivos, gerenciando solicitações explícitas – por salários de miséria, enquanto a narrativa pública celebra a riqueza de algumas estrelas da plataforma.' Os dados coletados mostram que, para um criador de nível médio que contrata esse tipo de suporte, o custo da terceirização pode representar menos de 10% de sua receita bruta, mas constitui 100% do sustento de seu trabalhador remoto, sem benefícios, previdência social ou qualquer proteção. Essa dinâmica replica padrões de exploração observados em outras indústrias da gig economy, mas com o acréscimo da intimidade e do fardo psicológico do conteúdo adulto.
O impacto dessa revelação é multifacetado. Em primeiro lugar, questiona a narrativa de empoderamento e democratização que envolve a economia dos criadores. Em segundo lugar, expõe as falhas de um modelo que terceiriza o risco e os custos trabalhistas para os indivíduos mais vulneráveis da cadeia. Finalmente, levanta questões urgentes sobre a regulamentação do trabalho digital transfronteiriço e a responsabilidade das plataformas tecnológicas. À medida que o Congresso dos EUA e os parlamentos europeus debatem leis para proteger trabalhadores de plataformas como Uber ou Deliveroo, o caso do OnlyFans sugere que a economia dos criadores precisa de um escrutínio semelhante. A conclusão é clara: por trás do brilho do 'boom' do OnlyFans existe uma infraestrutura humana frequentemente invisível, mal paga e superexplorada, lembrando-nos que os novos modelos digitais muitas vezes reciclam injustiças antigas.




