Uma década após seu lançamento, a campanha anticorrupção do presidente Xi Jinping, apelidada de 'caçar tigres e esmagar moscas', continua sendo um pilar central de sua governança. Segundo dados oficiais publicados recentemente, mais de 4,7 milhões de funcionários do Partido Comunista Chinês (PCC) foram investigados e sancionados desde 2012. Esta cifra monumental, que inclui desde altos escalões ('tigres') até burocratas de baixo escalão ('moscas'), levanta uma pergunta persistente em círculos políticos e analíticos: Por que uma operação de tal escala e duração permanece ativa, e o que revela sobre os desafios de governança na China? A resposta entrelaça-se com a consolidação do poder de Xi, a busca por legitimidade do partido e as profundas raízes sistêmicas da corrupção no maior aparato estatal do mundo.
O contexto desta campanha remonta ao 18º Congresso Nacional do PCC em 2012, quando Xi Jinping assumiu a liderança e alertou que a corrupção poderia levar ao colapso do partido e do estado. Imediatamente, a Comissão Central de Inspeção Disciplinar (CCDI), o órgão supremo anticorrupção, intensificou suas operações. A retórica inicial prometia uma 'gaiola de aço' para o poder, reforçando regulamentos e supervisão. No entanto, a escala das investigações superou todas as expectativas. Apenas em 2023, a CCDI informou mais de 590.000 casos disciplinares. Entre os 'tigres' mais proeminentes estão ex-membros do Politburo como Zhou Yongkang e Sun Zhengcai, sentenciados à prisão perpétua, demonstrando que ninguém está acima da lei. No entanto, críticos argumentam que a campanha também serviu como ferramenta para eliminar rivais políticos e centralizar a autoridade na figura de Xi, que acumulou títulos e poderes sem precedentes na história recente da China.
Dados relevantes mostram uma evolução no foco da purga. Em seus primeiros anos, concentrou-se em setores tradicionalmente propensos à corrupção, como construção de infraestrutura e energia. Posteriormente, expandiu-se para finanças, segurança pública e, mais recentemente, áreas estratégicas como tecnologia, bancos e ensino superior. Um relatório do Centro de Pesquisa de Governança do PCC indicou que 70% dos casos envolvem suborno, desvio de verbas e abuso de poder para benefício pessoal. A CCDI desenvolveu métodos sofisticados, incluindo 'inspeções surpresa' e o uso de big data para rastrear transações financeiras suspeitas. Apesar disso, a percepção pública, medida em pesquisas internas do partido, sugere que a corrupção menor e o nepotismo permanecem endêmicos nos governos locais, onde funcionários frequentemente priorizam lealdades pessoais em vez da meritocracia.
Declarações de altos funcionários refletem a postura oficial. Wang Qishan, ex-chefe da CCDI, afirmou: 'A luta contra a corrupção é uma batalha sem fim que requer perseverança e melhoria institucional'. Por sua vez, Xi Jinping reiterou em múltiplos discursos que 'os quadros do partido devem manter uma pureza política absoluta'. No entanto, analistas internacionais como Minxin Pei, professor da Universidade Claremont McKenna, oferecem uma visão mais crítica: 'A campanha tem sido eficaz para aterrorizar a burocracia e assegurar lealdade, mas não abordou causas estruturais, como a falta de transparência e um judiciário independente'. Esta dualidade entre conquistas declaradas e limitações estruturais explica em parte a continuidade da purga.
O impacto desta campanha prolongada é multifacetado. Internamente, reforçou a disciplina partidária e melhorou a eficiência na implementação de políticas nacionais, como metas de desenvolvimento econômico e resposta à pandemia. Externamente, projetou uma imagem de um governo determinado a limpar a casa, o que pode influenciar a confiança de investidores estrangeiros. No entanto, também gerou uma cultura de extrema cautela entre os funcionários, onde muitos evitam tomar decisões por medo de serem investigados, um fenômeno conhecido como 'inação por medo'. Isso poderia desacelerar a inovação administrativa e o crescimento econômico de longo prazo. Além disso, a ausência de uma imprensa livre e de mecanismos independentes de supervisão cidadã limita a prestação de contas, tornando o processo quase totalmente dependente da vontade política da liderança central.
Em conclusão, a purga anticorrupção de Xi Jinping continua porque se tornou um instrumento dual: por um lado, responde a uma demanda pública genuína por um governo limpo, e por outro, serve para consolidar um modelo de governança altamente centralizado. Embora tenha removido milhares de funcionários corruptos, sua persistência sugere que o problema está profundamente enraizado em um sistema onde poder político e econômico estão intimamente ligados. À medida que a China avança em direção a suas metas de 'rejuvenescimento nacional', a capacidade do partido de institucionalizar mecanismos anticorrupção além de campanhas temporárias será crucial para sua futura estabilidade. A luta contra 'tigres e moscas' pode não terminar em breve, pois reflete uma batalha constante por legitimidade no sistema de partido único mais influente do mundo.




